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27 Jul 2014 02:10 AM PDT
Obra de Deus controla várias entidades que têm um património superior a 80
milhões de euros. Está ligada a uma financeira de capitais de risco e conta com
cerca de 1500 seguidores em Portugal.
Jovens com pouco mais de 14 anos e oriundos de famílias abastadas são a base
de recrutamento. São educados para se tornarem santos e difundir “a mensagem de
que o trabalho e as circunstâncias habituais são ocasião para o encontro com
Deus, o serviço aos outros e o melhoramento da sociedade”. Estamos a falar da
Opus Dei, a “secreta” e polémica organização da Igreja Católica, que em
Portugal tem cerca de 1500 seguidores, na sua maioria mulheres e
casados. A forma de atingir tais fins e o vasto património que as
várias entidades ligadas à Obra de Deus possuem é que levanta muitas dúvidas
sobre os verdadeiros objectivos da instituição. A alimentar estas dúvidas
está o facto de se desconhecerem quem são e que cargos ocupam os
referidos “seguidores” na sociedade portuguesa, sendo certo que deles
fazem parte nomes sonantes como Ramalho Eanes, ex-presidente da
República, e a sua mulher, o conhecido bancário Jardim
Gonçalves, o conselheiro de Estado e ex-ministro da Segurança Social,
Bagão Félix, e o antigo presidente da Assembleia da República, Mota
Amaral, para dar apenas alguns exemplos. Oficialmente, o Opus Dei
não tem nada em seu nome. Está tudo nas mãos de várias instituições que têm
ligações evidentes à organização. A principal é a Fundação Maria António
Barreiro, fundada após a morte desta mulher, em meados da década de 80 do século
passado, e que deixou, em testamento, a sua gigantesca fortuna nas mãos do ex-
advogado do BCP, José Afonso Gil, um membro da Opus Dei e que é o presidente
vitalício da instituição, da qual fazem ainda parte, Francisco Oliveira Dias,
ex-presidente da Assembleia da República, e Carlos Câmara Pestana, ligado ao BPI
e ao Banco Itaú, mais dois destacados membros do Opus Dei.
Metade de um quarteirão
Da fortuna deixada por Maria Antónia Barreiro e que deu origem à fundação
ligada ao Opus Dei faziam parte 50% do quarteirão onde funciona a
Pastelaria Suíça, no Rossio, em pleno coração de Lisboa, que foi
vendido pouco depois da morte da benemérita. O negócio terá rendido cerca de 10
milhões de euros em valores actuais. A herança incluía ainda mais 18
prédios espalhados por Lisboa, jóias, depósitos a prazo em vários bancos e
títulos do tesouro. A sua fortuna tem sido usada em obras do Opus Dei
desde então e a Fundação tem um património superior a 41 milhões de euros. Em
seu nome estão quase uma centena de imóveis espalhados pelas freguesias de Penha
de França, S. Sebastião da Pedreira, Olivais e S. Domingos de Benfica. Só em
Marvila, a fundação tem 10 prédios, nove lojas e nove armazéns, sendo que um
deles vale cerca de 500 mil euros. A instituição é igualmente
proprietária de mais de metade da Rua Fernando Palha, na zona Oriental de
Lisboa.
Em nome da Fundação Maria Antónia Barreiro está um terreno junto à
Universidade Católica, em Lisboa, onde nasceu a residência universitária Montes
Claros e o Oratório S. Josemaria Escrivá, o santo fundador do Opus Dei. O
Centro de Orientação Familiar, que promove acções de formação para casais, a
funcionar num prédio da Rua do Possolo, ao lado da residência do presidente da
República, Cavaco Silva, é também da Fundação e na sua criação esteve envolvido
o conhecido banqueiro Jardim Gonçalves.
Uma financeira
O Opus Dei tem igualmente ao seu serviço a Cooperativa de Fomento de
Iniciativas Culturais (Cofic), entidade que financia o governo da Obra e que
possui quatro imóveis localizados em Viseu e dois em Coimbra, cujo valor ronda
os dois milhões de euros. A cooperativa tem 18 imóveis registados em seu
nome, entre os quais está a Quinta do Paço do Lumiar, com mais de 10 mil metros
quadrados, onde funciona a sede do Opus Dei e vive o líder da organização em
Portugal, o vigário regional José Rafael Espírito Santo. Só esta
quinta, com o seu sumptuoso palacete, está avaliada em cerca de 20 milhões de
euros.
A cooperativa é ainda dona de um prédio no Campo Grande, onde funciona o
Clube Xénon, vocacionado para organizar actividades para rapazes e que é um dos
principais pontos de captação de novos membros para a Obra. O prédio foi uma
doação da ISCAL, Sociedade Imobiliária Civil, administrada por três membros do
Opus, que também deixou uma quinta em Vila Nova de Gaia, onde a organização
construiu um edifício para acolher os participantes nos seus retiros
espirituais. Um complexo igual foi construído em Almançor, no Alentejo, em
terrenos doados à cooperativa por Alfredo Cunhal, tio do fundador do PCP, Álvaro
Cunhal. Mas o investimento onde o Opus Dei aparece envolvido e que
provoca mais estranheza é a Naves, uma sociedade de capitais de
risco. A Naves funciona na própria escola superior, na Calçada da
Palma de baixo, em Lisboa e tem activos superiores a um milhão de euros e
participações na imobiliária In Time (de Gaia) e na Várzea da Rainha
Impressores, um empresa que é presidida por Zita Seabra, que também dirige a
editora Althêia, responsável pela publicação, no ano passado, de uma biografia
do fundador do Opus, Josemaria Escrivá. A Escola Profissional Val do Rio, em
Oeiras, o Centro de Actividades Culturais do campo Grande, o Colégio
Universitário da Boavista e o Clube Vega, no Porto, são outras instituições
ligadas ao Opus Dei, que também tem o Hotel 3 Pastorinhos, localizado a escassos
50 metros do Santuário de Fátima.
“O Opus Dei é uma instituição legítima, existente ao abrigo do Direito
Concordatário, que pertence à organização da Igreja, e por isso também sujeita
ao escrutínio das normais instâncias judiciais. A missão do Opus Dei é
evangelizadora. Tal como todas as outras instituições da Igreja, cada
uma à sua maneira, procura que cada pessoa se abra a Deus, aprenda a encontrá-lo
na vida diária, integrando-se na vida da Igreja. A actividade do Opus Dei
resume-se na formação dos fiéis da prelatura para que desenvolvam – cada um no
lugar que tem na Igreja e no mundo – uma actividade apostólica multiforme,
promovendo em seu redor o ideal da chamada universal à santidade”, explicou o
assessor de Imprensa do Opus Dei, Pedro Gil. Segundo o porta-voz da Obra, “os
projectos de evangelização que as pessoas do Opus Dei realizam com outras
pessoas, e para os quais solicitam a atenção pastoral da prelatura, são
projectos autónomos, com responsáveis próprios e gestão independente. Por isso,
as informações que lhes dizem respeito devem-lhe ser solicitadas.”
 Pedro Gil salientou ainda que cada um dos membros integrantes da
prelatura (é assim que também se designa o Opus) faz face às suas necessidades
económicas pessoais e familiares por meio do trabalho profissional habitual.
“Além de se sustentarem pessoalmente, os fiéis do Opus Dei e os cooperadores
cobrem os gastos inerentes às necessidades pastorais da prelatura. Estes gastos
reduzem-se, basicamente, aos do sustento e formação dos sacerdotes da prelatura,
às despesas referentes à sede da cúria prelatícia, bem como às dos governos
regionais ou das delegações e às esmolas que a prelatura concede. Como é
natural, os fiéis do Opus Dei ajudam também igrejas, paróquias, etc”, concluiu o
assessor do Opus Dei em Portugal.
Os numerários e agregados são outra categoria de membros do Opus Dei,
porventura os de mais difícil reprodução. Além de lhes serem feitas as mesmas
exigências que aos supranumerários (seguidores casados), conhecem imposições que
os aproximam de figuras claustrais sem hábito, como o celibato
apostólico, a permanência nos centros da Obra, e a mortificação corporal, que
passa pelos tradicionais jejuns e abstinências e, aos sábados, pela
autoflagelação e uso de cilícios – espécie de cinto áspero, de corda ou arame,
aplicado sobre a pele. Aos numerários não lhes é consentido
celebrar com as famílias as festas do Natal, Páscoa e Ano Novo. Há
uma vigilância sobre os quartos, a correspondência, e o acesso
a espectáculos públicos. Todos os proventos – intelectuais ou outros – são
entregues à Obra, que por sua vez apenas lhes dá dinheiro para despesas mínimas.
Os agregados não têm normalmente formação universitária nem vivem nas
casas da Obra mas assumem os mesmos compromissos. Além dos
castigos corporais e da confissão, outra tarefa semanal é o
encontro com o director espiritual, papel atribuído a um leigo designado pela
estrutura. Se for caso disso, é proposta a “correcção
fraterna”, que não passa de uma punição ou acto de contrição exigidos
pelo director espiritual e que é um dos métodos de controlo das consciências no
interior da Obra de Balaguer. Segundo testemunhos de dissidentes que
circulam na Internet, estes métodos têm produzido enormes estragos no tecido
mental dos membros.
D. Alberto Cosme do Amaral, falecido bispo de Leiria, foi, antes de receber o
episcopado, o primeiro padre diocesano a associar-se às estruturas da
organização em Portugal. São cerca de meia centena os padres portugueses da
Prelatura, cifrando-se a nível mundial nos 1800, incluindo diáconos. Dispersos
pelos centros do Opus Dei, os padres fazem serviço de confissões e dão apoio aos
tribunais diocesanos.

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