|
Posted:
21 Apr 2013 08:34 AM PDT
Miguel Sousa Tavares,
desvenda alguns esquemas entre a banca, a maçonaria e a politica. O descaramento
é característica mais marcante dos intervenientes. Na falta de justiça, Miguel
Sousa Tavares, propõe que pelo, menos através do conhecimento público, esta
passe a ser uma história julgada, por todos, pela falta de vergonha. O
artigo é de 2007, mas a falta de vergonha, o compadrio, o abuso, a maçonaria,
etc... continuam por esse país fora, devastadores e bem actuais. E infelizmente,
ainda desconhecidos por milhões de portugueses.
"Em países onde o capitalismo, as
leis da concorrência e a seriedade do negócio bancário são levados sério a
inacreditável história do BCP já teria levado a prisões e a um escândalo
público de todo o tamanho. Em Portugal, como tudo, vai acabar sem
responsáveis e sem responsabilidades, convém recordar os principais momentos
deste "case study", para que ao menos a falta de vergonha não passe
impune.
1- Até ao
25 de Abril, o negócio bancário em Portugal obedecia a regras simples:
cada grande família, intimamente ligada ao regime, tinha o seu
banco. Os bancos tinham um só dono ou uma só família como dono e
sustentavam os demais negócios do respectivo grupo. Jardim Gonçalves veio
revolucionar isso, com a criação do BCP e, mais tarde, da Nova Rede, onde as
pessoas passaram a ser tratadas como clientes e recebidas por profissionais do
ofício. (...) 2 - (...)o BCP
foi crescendo, crescendo, até se tornar o maior banco privado português, apenas
atrás do único banco público, a Caixa Geral de Depósitos. E, de cada vez que
crescia, era necessário um aumento de capital. E, em cada aumento de capital,
era necessário evitar que algum accionista individual ganhasse tanta dimensão
que pudesse passar a interferir na gestão do banco. Para tal, o BCP
começou a fazer coisas pouco recomendáveis: aos pequenos
depositantes, que lhe tinham confiado as suas poupanças para gestão, o BCP
tratava de lhes comprar, sem os consultar, acções do próprio banco nos aumentos
de capital, deixando-os depois desamparados perante as perdas em
bolsa; aos grandes depositantes
e amigos dos gestores, abria-lhes créditos de milhões em "off-shores" para
comprarem acções do banco, cobrindo-lhes, em caso de necessidade, os
prejuízos do investimento. Desta forma exemplar, o banco financiou o seu
crescimento com o pêlo do próprio cão - aliás, com o dinheiro dos depositantes
- e subtraiu ao Estado uma fortuna
em lucros não declarados para impostos. Ano após ano, também o
próprio BCP declarava
lucros astronómicos, pelos quais pagava menos de impostos do que os
porteiros do banco pagavam de IRS em percentagem. E, enquanto isso,
aqueles que lhe tinham confiado as suas pequenas ou médias poupanças viam-nas
sistematicamente estagnadas ou até diminuídas e, de seis em seis meses, recebiam
uma carta-circular do engenheiro a explicar que os mercados estavam muito
mal. 3 - Depois, e seguindo a velha profecia
marxista, o
BCP quis crescer ainda mais e engolir o BPI. Não conseguiu, mas, no
processo, o engenheiro trucidou o sucessor que ele próprio havia escolhido,
mostrando que a tímida "renovação" anunciada não passava de uma farsa. E
descobriu-se ainda uma outra coisa extraordinária e que se diria impossível: que
o BCP e o BPI tinham participações cruzadas, ao ponto de hoje o BPI deter 8% do
capital do BCP e, como maior accionista individual, ter-se tornado determinante
no processo de escolha da nova administração... do concorrente! Como se fosse a
coisa mais natural do mundo, o presidente do BPI dá uma conferência de imprensa
a explicar quem deve integrar a nova administração do banco que o quis opar e
com o qual é suposto concorrer no mercado, todos os dias... 4 - Instalada entretanto a guerra
interna, entra em cena o notável comendador
Berardo - o homem que mais riqueza acumula e menos produz no país - protegido de Sócrates, que lhe deu um
museu do Estado para ele armazenar a sua colecção de arte privada. Mas, verdade
se diga, as brasas espalhadas por Berardo tiveram o mérito de revelar segredos
ocultos e inconfessáveis daquela casa. E assim ficámos a saber que o filho do engenheiro fora
financiado em milhões para um negócio de vão de escada, e perdoado em milhões
quando o negócio inevitavelmente foi por água abaixo. E que havia também
amigos do engenheiro e da administração, gente que se prestara ao esquema das
"off-shores", que igualmente viam os seus créditos malparados serem perdoados e
esquecidos por acto de favor pessoal. 5- E foi quando, lá do fundo do sono
dos justos onde dormia tranquilo, acorda inesperadamente o governador do Banco
de Portugal e resolve dizer que já bastava: aquela gente não podia continuar a
dirigir o banco, sob pena de acontecer alguma coisa de mais grave - como, por
exemplo, a própria falência, a prazo. 6-
Reúnem-se, então, as seguintes personalidades de eleição: o
comendador Berardo, o presidente de uma empresa pública com participação no BCP
e ele próprio ex-ministro de um governo PSD e da confiança pessoal de Sócrates,
mais, ao que consta, alguém em representação do doutor "honoris causa" Stanley
Ho - a quem tantos socialistas tanto devem e vice-versa. E, entre todos,
congeminam um "take over" sobre a administração do BCP, com o "agréement" do dr.
Fernando Ulrich, do BPI. E
olhando para o panorama perturbante a que se tinha chegado, a juntar ao súbito
despertar
do dr. Vítor
Constâncio, acharam todos avisado entregar o BCP ao PS. Para que
não restassem dúvidas das suas boas intenções, até concordaram em que a
vice-presidência fosse entregue ao
sr. Armando Vara (que também usa 'dr.') - esse expoente político e
bancário que o país inteiro conhece
e respeita. 7- E eis como
um banco, que era tão independente que fazia tremer os governos, desagua nos
braços cândidos de um partido político - e logo o do Governo. E eis como um
banco, que era tão cristão, tão "opus dei", tão boas famílias, acaba na esfera
dessa curiosa seita do avental, a que
chamam maçonaria.
8- E,
revelada a trama em todo o seu esplendor, que faz o líder da
oposição? Pede em troca, para o seu
partido, a Caixa Geral de Depósitos, o banco público. Pede e vai
receber, porque há 'matérias de regime' que mesmo um governo com maioria
absoluta no parlamento não se atreve a pôr em causa. Um governo
inteligente, em Portugal, sabe que nunca pode abocanhar o bolo todo. Sob pena de
os escândalos começarem a rolar na praça pública, não pode haver durante muito
tempo um pequeno exército de desempregados da Grande Família do Bloco
Central. Se alguém me tivesse contado esta história, eu não teria
acreditado. Mas vemos, ouvimos e lemos. E foi tal e qual."
fonte

|